O dia em que eu entendi Massive Attack

É curioso como determinados cenários fazem com que a música fique mais relevante. Eu sempre gostei de Massive Attack. Principalmente a pegada dub que eles têm. No trip-hop para mim existia apenas duas bandas realmente foda: Portishead e Massive Attack. Eu sei que são os ícones desse tipo de música mas enfim, eu queria fazer uma musica simples e sofisticada como o Portishead e queria fazer algo tão viajante como Massive Attack.
Mas mesmo adorando e ouvindo muito essas bandas, o dia que eu realmente entendi esse tipo de som foi curioso. Era 2007, eu estava de férias, viajando pela Europa com a minha esposa e Viena era a penúltima cidade que visitaríamos. Já estavamos viajando por 20 dias e fomos para Viena de trem saindo de Munique. Chegamos as 6 da manhã na estação do trem e umas 7 horas eu acho no hotel. Estávamos mortos. Era meu aniversário e esse era o primeiro hotel legal que ficaríamos. O de Amsterdam era legal, o de Paris um nojo, na Alemanha ficamos na casa de amigos e parentes e Viena era um hotel legal. Era um prédio antigo que tinha sido renovado mas que ainda tinha aquela coisa toda de parecer vintage. O quarto era grande, o pé direito alto, a cama enorme e super confortável e tinha uma cortina vermelha tipo aquelas de cinema e teatro.
Como mencionei antes, estávamos super cansados, era dia mas precisávamos descansar umas 2-3 horas para poder conhecer a cidade.
Minha esposa dormiu rapidamente e eu peguei o iPod, coloquei Massive Attack no random e caiu justamente no clássico disco Mezanine e finalmente entendi aquele som. Claro, eu não estava em Londres, eu não estava sob a influência de nenhuma substância ilegal mas de alguma forma o meu cansaço, a luz do dia nublado passando por frestas da cortina, aquela cama super confortável e aquelas músicas fizeram com que eu entendesse porque aqueles caras faziam esse tipo de som. Tudo fez sentido. Pode parecer papo de maluco e, se pararmos para pensar, até é um pouco mas quem nunca teve uma experiência incrível ouvindo música, acho que nunca apreciou muito música, né?

Tive outras experiências curiosas com música. Uma foi ouvindo Third Eye do fantástico album Aenima do Tool ao fazer compras e notei que em determinado momento eu estava completamente desnorteado não sabendo para onde deveria ir. Pode ser um pouco do Gruen Transfer mas a música definitivamente teve um papel ali.

Outra coisa é que eu sempre gostei de rap. Não me importava muito se era east ou west coast. Se era bom, eu ouvia. Mas uma coisa que me chamou a atenção foi como o rap east coast faz sentido em Nova Iorque. Eu nunca tinha ido para lá e fui recentemente. Todas as minhas viagens nos EUA foram para a costa oeste e para Miami (que não é bem EUA, né?). Mas juro que ouvir Beastie Boys andando por Nova Iorque foi incrível. E o engraçado é que dava para notar quais músicas e quais artistas eram da Costa leste. O som fazia sentido e não parecia forçado naquele ambiente. Mais ou menos como ouvir funk carioca em São Paulo. O ambiente é outro. A música faz menos sentido.

O dia em que eu entendi o Massive Attack foi um grande lembrete de como o contexto é importante na criação de qualquer coisa. Se aquela arte é relevante para aquela época, ela pode fazer sucesso e ter efeito em outros locais mas, provavelmente, no seu local de origem (ou algum que emule bem essas características) ela vai fazer mais sentido. Ou seja, para criar muitas vezes tem que ouvir e estar com o radar ligado.

Inertia Creeps. moving up slowly.

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