Posts from the “Opinião” Category

A descoberta do pensamento

Posted on January 19, 2016

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Essa história foi contada pela minha mãe.
Ela estava me levando de carro, um fusca creme, para a casa dos meus avós. Estava na estrada das canoas no Rio.
Era fim de tarde e começava a escurecer.
Segundo ela, eu tinha aproximadamente 3 anos nessa época.
Ela no banco da frente e eu no banco de trás na cadeirinha.
Música tocando no rádio quando A Hora do Brasil começou a tocar. Minha mãe desligou o aparelho.
Silêncio.
De repente eu, com a minha curiosidade e do alto dos meus 3 anos falo:

– Mãe, eu tenho duas vós, né?
– Tem sim, filho, a sua vó Nilce que a gente está indo encontrar agora e a sua vó Lygia.
– Não, mãe, eu tenho duas vós. Uma que é alta como essa aqui que eu estou falando agora e outra bem baixinha e que ninguém ouve, né?

Segundo ela o silêncio no carro voltou com tudo simplesmente porque ela não sabia o que falar depois de uma constatação tão séria como essa.

O que aprendi quando publiquei um texto sobre racismo

Posted on October 20, 2015

Eu escrevi um texto sobre racismo nas agências de publicidade em um dos maiores sites de publicidade no Brasil. Era um texto de opinião sobre a minha percepção do que acontece no mercado de publicidade e sobre a minha experiência nesse mercado. Como todo texto de opinião, ele mostra um lado. Mas o que eu descobri depois é que não existe mais texto de opinião quando o assunto é racismo. Ou você concorda com todas as premissas básicas de quem é contra o racismo, ou seja, a favor de cotas raciais, reparação pelos séculos de escravatura e nunca chamar pardo de mulato (mesmo que você se autodenomine mulato) ou então o seu texto e a sua opinião, basicamente, não servem para nada.

A discordância é algo bom para a discussão mas, infelizmente, nos preocupamos mais em agredir quem não concorda conosco do que ouvir e tentar entender por que ele tem essa opinião e como podemos usar esse debate a nosso favor. Quem já leu meus outros textos no B9 vai notar que eu sempre questiono coisas do mercado. Sempre na esperança de que haja uma discussão que possa fazer o mercado andar para frente.

A proposta do texto sempre foi iniciar uma discussão saudável sobre a falta de negros nas áreas Criação, Planejamento, Mídia e Atendimento das agências de publicidade e questionar porque não há igualdade nesse processo seletivo quando envolve negros e pardos. Pode ser racismo, pode ser falta de hábito, pode ser um monte de coisa. Mas algo é claro: não há essa igualdade na análise dos perfis como todas as agências dizem que há.
No final, o que percebi foi que para algumas pessoas, há quase uma competição de quem realmente sofre racismo. Como se as situações claras de racismo que alguém que não tenha determinadas características sejam menores ou quase inválidas.
Não é uma competição de quem sofreu (ou sofre) mais preconceito. Racismo é racismo e ponto. Não importa se acontece no restaurante mais caro da cidade, no Teatro Municipal, na padaria ou na saída de um baile funk. É uma merda quando acontece.
Agora entendo porque tem tão pouca gente falando sobre o tema. Você vai apanhar de qualquer jeito. Listei alguns pontos sobre o que aprendi dessa história toda:

1 BACK TO AFRICA Eu só soube do lance da foto da agência África nos comentários e compartilhamentos do texto. O que eu escrevi não é uma resposta a isso. É um desabafo pessoal de como faltam negros e pardos no mercado de publicidade, que é no que eu trabalho e conheço embora saiba que esse mesmo fenômeno também acontece em outros setores. Mas o que me chamou a atenção é que nos departamentos “de frente” das agências raramente tem negros e pardos. Era essa a história e isso não se repetia nos departamentos “de base” como Administrativo e financeiro. Era isso que queria que fosse debatido. E quase ninguém falou disso.

2 HE GOT GAME Notei que pessoas um pouco mais velhas e com alguma vivência de trabalho se identificaram mais com o meu texto. Comentários, emails e mensagens que recebi dessas pessoas falando que eu escrevi sobre a vida delas e que elas se identificaram e entenderam cada detalhe do texto e me agradeceram. Isso foi sensacional. Compensou todo o inferno que rolava ao mesmo tempo.

3 FEAR OF A BLACK PLANET O termo mulato, por conta da sua etimologia, incomoda muito a nova geração, que parece ser mais politizada e ativa que a minha. Assim que notei essa interpretação, embora nunca tenha achado mulato um termo depreciativo (e acho que muitos da minha geração também não) e me auto-denominar mulato minha vida toda, troquei todas as ocorrências do termo mulato no texto por pardo que é como o Censo usa (e mesmo assim não agradou todo mundo). Houve um problema de cache ou do site ou do Twitter em que o termo mulato aparecia ainda em alguns tweets. Foi chato falar para pessoas que não leram o texto todo e não notaram que o termo já havia sido trocado (mas mantido sobrescrito para mostrar a alteração feita) que já tínhamos passado dessa fase no debate.
Em tempo, acho o termo “pardo” bem ruim também. Mas não tenho outro para sugerir então vamos usar esse mesmo.

4 RACISTAS OTÁRIOS Comentários racistas de gente que nem notava que o comentário era racista. Exatamente o que acontece no dia a dia de 53% da população brasileira. Comentaristas de portais e vídeos no YouTube estão em todos os lugares. No começo eu respondi um monte de comentários bem articulados tanto no post quanto na página do B9 no Facebook mas depois eu desisti. Não era mais um debate.

5 EXPRESS YOURSELF Cotas são polêmicas. Muitas pessoas discordam da minha opinião de ser contra cotas raciais. Muitas pessoas achavam que eu não conhecia a fundo ou a Lei das cotas ou história do Brasil. Gente, eu sei do posicionamento de reparação por trás das cotas raciais, eu sei do impacto dessas ações afirmativas, eu sei do histórico em outros locais e tudo mais. Mas, de novo, na minha opinião, acho que se fizéssemos uma lei de cotas exclusivamente por renda familiar (e eu sei que ela já prevê isso também) evitaríamos casos como o da UnB e o do candidato a Diplomata virassem notícia. Quando você se autodeclara negro ou pardo você tem direito a cota. E aí o dilema vira moral e não racial. No final, as pessoas que entram por cotas acabam tendo o mesmo aproveitamento dos que não são cotistas e isso é bom.
Mas o que quero dizer é que em um país em que as classes D e E são formadas por aproximadamente 70% de negros e pardos, continuo achando que cotas por renda familiar podem acabar tendo o mesmo resultado das cotas raciais.

6 BABYLON MAKES THE RULES Embora minhas fotos no Instagram sejam em sua maioria preto&branco, eu não vejo as coisas desse jeito. Poucos notaram que eu usei o termo “não-negros” justamente por isso. Na minha opinião não é branco vs preto. Na minha opinião, a parte errada do branco vs preto é o “versus”. Essa briga desgasta muito e, geralmente, não muda a opinião de quem é preconceituoso.

7 TEMPOS DIFÍCEIS Quando meu filho sofreu a situação de racismo que citei no texto, eu chorei de raiva por ver que ele ainda tinha passar por isso. Minha esposa chorou porque não sabia o que fazer numa situação como essa. Por isso achei importante falar que meus pais formam um casal interracial. Para incluir pessoas que viveram (e vivem) essa mesma situação no debate porque o preconceito atinge também os filhos desses casais.

8 THE MESSAGE Desqualificar o texto porque tem erros de pontuação, porque você discorda da opinião em relação a cotas e o uso do termo mulato é uma pena. O texto não era sobre isso e quem fez isso, perdeu uma excelente oportunidade para debater algo que imaginei era importante para todo o mercado.

9 BITCH, DON’T KILL MY VIBE Desqualificar o autor do texto também não leva a lugar nenhum. Fui chamado de ignorante, burro, manipulador e mais um monte de coisa. As pessoas esquecem que há uma pessoa que optou colocar o seu na reta e se manifestar para que outras pessoas possam continuar o assunto.

10 DON’T BELIEVE THE HYPE Por eu ter escrito esse texto em um veículo cujo mercado é basicamente dominado pela falta de representatividade de negros e ter questionado algo, provavelmente vou levar a fama de ser um cara super politizado e engajado com o movimento negro. Eu não sou essa pessoa. Um monte de gente entrou no meu LinkedIn e imagino que no meu perfil do Facebook para saber quem era esse cara que estava falando de racismo em agencias de publicidade. Sim, eu sou publicitário, trabalhei em algumas agências bem legais, frequentei outras agências e, no geral, todas têm esse mesmo problema de poucos (ou nenhum) negros naquelas áreas. Me chamaram para participar e ajudar em vários projetos e eu, posso tentar ajudar, mas não se iluda achando que sou o defensor da causa negra. Eu sou apenas mais um que passou por situações de preconceito. A única diferença é que eu resolvi escrever sobre o que poucos escrevem.

11 O PROCESSO Agora a bola está com todo mundo que leu o texto. Está na hora de quem não se sentiu representado, escrever seu ponto de vista. Acredito que assim a gente acabe chegando lá e conquistando a tal igualdade e respeito que queremos tanto.

12 CALM LIKE A BOMB É isso, gente. Agora vou voltar para a minha vidinha animada e ansiosa de quem em breve vai lançar um app de cidadania que vai servir para todo mundo, independente da cor da pele 😉

And tha riot be tha rhyme of tha unheard
what ya say, what ya say, what ya say, what?

Texto publicado originalmente no Medium

Christopher Nolan e o tempo

Posted on November 5, 2014

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Ontem assisti Interestelar do Christopher Nolan e uma coisa me chamou muito a atenção: como o tempo aparece com destaque em alguns dos seus filmes.

Memento — O protagonista tem uma condição em que ele não tem memória recente. O que faz com que a questão do tempo esteja bem clara. Até pela maneira que o filme é contado.
Insônia — A questão do tempo também aparece em bastante quando paramos para analisar que o filme em um lugar que não escurece.
Inception — O tempo funciona diferente em cada nível de sonho.
Interestelar — O tempo é quase um protagonista do filme. Uma viagem para o espaço sem saber quando e se vai voltar.

Enfim, não vou falar mais nada do filme mas eu realmente fiquei com esse negócio na cabeça. Não sei se o tempo aparece com tanto destaque nos outros filmes. Se alguém lembrar de outros filmes do Christopher Nolan em que o tempo aparece de uma maneira diferente, me avisa.

Falso positivo

Posted on October 22, 2014

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Recentemente tive meu segundo filho. Filha, no caso. Beatriz. Nasceu bem, sem problemas. Todos apaixonados por ela na maternidade. Como era de se esperar, estávamos numa felicidade só. Ter um bebê em casa é algo que dá trabalho mas também dá um prazer enorme e o amor na casa é quase palpável. Até o irmão, 6 anos mais velho, estava mais curioso do que com ciúmes.

Até recebermos uma ligação do nosso pediatra, que já havia examinado a Beatriz na sua primeira consulta e verificado que tudo estava ótimo, ela tinha engordado e crescido na primeira semana de vida. Tudo certo. Pelo menos até receber essa ligação em que ele, cheio de dedos falou que houve um desvio no teste do pezinho e que deveríamos faze-lo novamente para tirar a dúvida. Perguntei o que era, ele me disse para eu não me preocupar porque esses desvios acontecem e que nada indicava que havia algo errado com a minha filha.

Ao falar isso para a minha esposa, ela foi direto ver qual enzima estava errada. Quando vimos que era um desvio no IRT e que era o que causava a Fibrose Cística, foi que as coisas começaram a complicar. Eu já conhecia um pouco sobre a doença por causa do filme Lemonade em que uma das pessoas retratadas tem uma filha com essa doença que prejudica os sistemas respiratório e digestivo e que compromete muito a sobrevida de quem tem.

Minha esposa ficou mal, eu fiquei mal e guardamos isso para nós. Acho que por trabalhar toda hora com relatórios e dados, a primeira coisa que me veio a mente foi:

“Qual a margem de erro desses testes? Quantos falsos positivos aparecem nesse teste?”

e depois fui ver o que causa essa doença e que sintomas em um recém-nascido acusam que há algo errado. Minha filha não tinha nenhum deles. Para se ter essa doença, ambos os pais devem ter esse gene. Até onde sabemos, nenhum dos dois tinha caso na família. Ótimo.

Somando todas essas informações a calma do nosso super pediatra, não havia nada racional que pudesse justificar que ela realmente correria o risco de ter Fibrose Cística. Nada racional. Apenas emocional. E aí que ferrou tudo. Soubemos a noite e só poderíamos levar para refazer o exame no dia seguinte. Acordamos, levamos nosso filho a escola e depois fomos direto para o Hospital refazer o teste do pezinho que, dessa vez, era um exame de sangue normal com agulha na veia e tal. O resultado sairia em 15 dias. 15 DIAS DE INCERTEZA.

Saber que o inferno da incerteza tem um sub-solo que pode ser a certeza é o que mais amedronta qualquer um.

Falamos com nossos pais o que estava acontecendo, explicamos a parte racional e que eles não deveriam se preocupar. Mas era perceptível que o que nos consumia era o emocional.

Aí resolvi entender melhor o teste do pezinho e achei um post do Drauzio Varella a respeito da historia do teste: “O teste do pezinho chegou ao Brasil na década de 70 para identificar a fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito. Em 1992, o teste se tornou obrigatório em todo o território nacional (…) A triagem deve ser feita entre o terceiro e o sétimo dia de vida do bebê, já que antes disso os resultados podem não ser muito precisos.”

Ao tomar conhecimento disso, uma luz amarela acendeu na minha cabeça. Peraí nós saímos do Hospital 2 dias depois do nascimento da Beatriz e ela fez o teste do pezinho um pouco antes de termos alta.

Enquanto estamos na maternidade e notamos que o bebê está bem, o teste do pezinho é quase uma formalidade pois olhando para o bebê e suas reações nas primeiras 48 horas de vida, tudo leva a crer que não há problema nenhum. Principalmente quando todos os testes foram feitos durante a gravidez que foi muito bem acompanhada em todos os detalhes.

O Hospital/Maternidade que ficamos é um dos melhores de São Paulo. Acho que do Brasil também. Não tivemos problemas na nossa estada por lá. Parto ótimo, atendimento ótimo. Sem problemas. Como todas as maternidades, há um problema de super-lotação e tivemos que aguardar um quarto. Tudo bem, faz parte. Mas algumas políticas por conta desse cenário começam a complicar o resultado final.

Atualmente nesse hospital, as mães tem alta 48 horas após o parto (cesárea ou não). Para não deixar essas pessoas sem apoio, o hospital manda uma enfermeira até a casa das pessoas para examinar a mãe e o bebê.

E é ao dar alta a mãe e bebê 48 horas depois do parto que começam os problemas. Com essa política, segundo o post do Dr Drauzio Varella citado acima, aumentam os índices de erro no teste do pezinho.

Além disso, o bebê, nesses primeiros dias tem muita coisa se consolidando. Icterícia é uma dessas coisas, hoje é comum que as crianças recebam banho de luz UV para isso. E o índice pode mudar rapidamente nesses primeiros dias. Pode estar abaixo no dia 2 e acima no dia 3 e aí precisar desse banho de UV. Isso foi uma das coisas que aconteceram com a Beatriz fora o desvio no exame.

E nessa situação toda, a família fica completamente vendida. Se esse erro/desvio tivesse acontecido no dia 4, a preocupação seria a mesma mas eu saberia que foi apenas um desvio e que isso acontece.

Ao saber que o exame foi feito antes para desocupar o quarto antes e que isso fez com que nós tivéssemos que lidar com o erro do teste feito antes da hora, a única sensação que me dá é de que o hospital teve uma atitude insensível.
Isso porque eu não vou nem abordar o fato de que o plano de saúde provavelmente vai pagar um novo exame por conta desse falso positivo.

No final das contas, a escolha do hospital foi tomada as minhas custas. A minha família que se desesperou e passou 10 dias numa senhora apreensão enquanto, para mim, a impressão é de que o Hospital não viu um bebê e sua família. Viu apenas números: do novo cliente (paciente não é o melhor termo aqui) que ocuparia o quarto, do novo teste que poderia cobrar do plano de saúde e do lucro de quanto essa nova política é rentável para o hospital.

É uma pena que eu e minha família tenhamos passado por isso. Claro, é bem melhor que ter uma filha com uma condição de saúde delicada mas, mesmo assim, seria leviano eu me calar e não questionar essa prática. E sim, quando nos ligaram para perguntar o que achamos do serviço de mandar uma enfermeira e se estávamos satisfeitos com o serviço do hospital como um todo, falamos a verdade mas dúvido que isso seja considerado algum dia. Eles devem estar muito ocupados contando o lucro derivado dessa política.

Então se você tiver como pedir para a sua médica um jeito de continuar no hospital até o terceiro dia, faça isso. Ninguém merece passar esses dias todos no desespero.

Em tempo, Fibrose Cística é uma condição rara e os falsos positivos podem durar até o quarto mês de vida da criança que é quando um exame com suor pode ser feito para confirmar ou não se o bebê tem essa doença.

Meus 20 centavos sobre as manifestações do MPL

Posted on June 14, 2013

Aqui vão os meus R$0,20 sobre tudo o que aconteceu nos últimos dias e que vi de longe sem participação nos protestos ou nas reclamações do trânsito e quebra-quebra.

Ainda é cedo para afirmar se esse movimento vai tomar força, mas uma coisa é certa. Hoje, esse movimento não é mais sobre os vinte centavos da passagem. Hoje as manifestações são contra algo muito maior que isso.
Não sei se no futuro essas demonstrações aparecerão em livros de história como a Revolta das Passagens, dos vinte centavos, do Vinagre ou até mesmo Revolta da Copa. Mas o que vejo, e esse texto na Superinteressante é preciso, é que os últimos governos do Brasil (e seus frequentes escândalos e roubos) foram tolerados ao seu limite.

Hoje as manifestações são contra algo muito maior que isso.

Os R$0,20 podem não mexer tanto no bolso da classe AB(e eu me incluo nesse grupo) que se dá ao luxo de comprar uma bebida na balada que custa mais do que a média de R$8,80 que cada um economizaria ao mês. Mas se pensarmos nesses mesmo valor, multiplicado pela população que usa ônibus diariamente, esse valor é bastante significativo. Se somarmos esse valor aos números gastos nas obras superfaturadas da Copa, ao dinheiro desviado nos últimos escândalos do governo, faz sentido que as pessoas protestem. Isso porque eu ainda nem mencionei o subsídio do governo ao transporte público.

Não acho que faz sentido algum quebrarem a cidade. Acho que protestos pacíficos são para gerar um incômodo em todos de que algo está errado e precisa ser mudado. O trânsito da cidade sofre, as diferenças são expostas e providências devem ser tomadas. Não acho que faz sentido também os policiais agirem do jeito que agiram mas o ciclo da violência funciona assim. A tensão aumenta, a agressão acontece e depois rola o período de desculpas e uma lua de mel (o termo não é meu, eu juro) temporária até a tensão aumentar novamente.

A tensão aumenta, a agressão acontece e depois rola o período de desculpas e uma lua de mel

Policiais devem manter a ordem e ao verem pessoas quebrando a cidade, eles vão reagir da maneira que foram (mal) treinados. Isso inicia o ciclo da violência e faz com que quem apanhou queira se vingar. Infelizmente, isso acontece nos dois lados. Os jornais mostraram um policial ferido e sangrando nos protestos de anteontem o que faz com que, nos protestos de hoje, os policiais estejam com sangue nos olhos para revidar ou, pelo menos, não serem os próximos feridos. O papel da mídia é relatar o que está acontecendo mas, na prática o que acontece é, vamos mostrar o que dá audiência e vende mais jornal, revista, etc. E geralmente o que faz isso são assuntos polêmicos.
Só que aí quando os repórteres são as vítimas, os vândalos de anteontem voltam a ser manifestantes e a polícia se torna o inimigo. É aquela história, o inimigo do meu inimigo é meu amigo, até ser o inimigo de novo.

E nesse ciclo da violência, a mídia acaba tendo um papel fundamental em alimentar o ciclo. É ela que mostra quem está levando a melhor ou pior nos embates e ajuda a criar tensão para o próximo. E mais, quando o que a mídia relata não é o que as pessoas viram, esse desconforto começa a se tornar revolta e as pessoas querem ser ouvidas quando falam sobre o que está acontecendo. Se a mídia não está ouvindo, eu vou falar cada vez mais alto e vou começar a falar usando a minha mídia.

Eu não fui aos protestos nenhum dia, mas os relatos que li falam que parte de quem estava protestando era jovem e que provavelmente de classe média. Os trabalhadores que realmente precisariam desse dinheiro não estariam lá. Mesmo que isso não seja 100% o que aconteceu, o fato de termos jovens de classe média brigando por algo que não muda suas vidas é algo digno de nota. O fato de ter gente falando para os outros não quebrarem a cidade, é digno de nota. E isso são coisas que não aparecem na mídia tradicional mas aparecem nos relatos nas redes sociais.

o fato de termos jovens de classe média brigando por algo que não muda suas vidas é algo digno de nota. O fato de ter gente falando para os outros não quebrarem a cidade, é digno de nota

Mas a sensação que tenho é que tudo isso pode ser o que está dando aos Millenials um propósito. E a tal da geração “que não faz nada”, “que só pensa nela” e tal agora pode ser realmente quem vai virar o jogo. Não apenas criando suas start-ups mas participando de uma possível mudança de atitude entre os brasileiros.

Queria que tivéssemos líderes mais articulados nos dois lados para que essas negociações acontecessem de uma maneira melhor para todos. O argumento de não negociar com o outro lado apenas mostra a imaturidade de ambos. O radicalismo leva ao erro e essa história de que as coisas só podem ser do meu jeito (tanto do lado do governo em não oferecer opções quanto ao MPL em só aceitar a volta do preço das passagens) parece coisa de quem não quer resolver nada mas sim impôr a sua vontade.

Vendo a manifestação me dá um orgulho dessa geração e me dá também uma esperança de que eles não serão tolerantes com o que acontece no Brasil como outras gerações foram.