Aqui vão os meus R$0,20 sobre tudo o que aconteceu nos últimos dias e que vi de longe sem participação nos protestos ou nas reclamações do trânsito e quebra-quebra.

Ainda é cedo para afirmar se esse movimento vai tomar força, mas uma coisa é certa. Hoje, esse movimento não é mais sobre os vinte centavos da passagem. Hoje as manifestações são contra algo muito maior que isso.
Não sei se no futuro essas demonstrações aparecerão em livros de história como a Revolta das Passagens, dos vinte centavos, do Vinagre ou até mesmo Revolta da Copa. Mas o que vejo, e esse texto na Superinteressante é preciso, é que os últimos governos do Brasil (e seus frequentes escândalos e roubos) foram tolerados ao seu limite.

Hoje as manifestações são contra algo muito maior que isso.

Os R$0,20 podem não mexer tanto no bolso da classe AB(e eu me incluo nesse grupo) que se dá ao luxo de comprar uma bebida na balada que custa mais do que a média de R$8,80 que cada um economizaria ao mês. Mas se pensarmos nesses mesmo valor, multiplicado pela população que usa ônibus diariamente, esse valor é bastante significativo. Se somarmos esse valor aos números gastos nas obras superfaturadas da Copa, ao dinheiro desviado nos últimos escândalos do governo, faz sentido que as pessoas protestem. Isso porque eu ainda nem mencionei o subsídio do governo ao transporte público.

Não acho que faz sentido algum quebrarem a cidade. Acho que protestos pacíficos são para gerar um incômodo em todos de que algo está errado e precisa ser mudado. O trânsito da cidade sofre, as diferenças são expostas e providências devem ser tomadas. Não acho que faz sentido também os policiais agirem do jeito que agiram mas o ciclo da violência funciona assim. A tensão aumenta, a agressão acontece e depois rola o período de desculpas e uma lua de mel (o termo não é meu, eu juro) temporária até a tensão aumentar novamente.

A tensão aumenta, a agressão acontece e depois rola o período de desculpas e uma lua de mel

Policiais devem manter a ordem e ao verem pessoas quebrando a cidade, eles vão reagir da maneira que foram (mal) treinados. Isso inicia o ciclo da violência e faz com que quem apanhou queira se vingar. Infelizmente, isso acontece nos dois lados. Os jornais mostraram um policial ferido e sangrando nos protestos de anteontem o que faz com que, nos protestos de hoje, os policiais estejam com sangue nos olhos para revidar ou, pelo menos, não serem os próximos feridos. O papel da mídia é relatar o que está acontecendo mas, na prática o que acontece é, vamos mostrar o que dá audiência e vende mais jornal, revista, etc. E geralmente o que faz isso são assuntos polêmicos.
Só que aí quando os repórteres são as vítimas, os vândalos de anteontem voltam a ser manifestantes e a polícia se torna o inimigo. É aquela história, o inimigo do meu inimigo é meu amigo, até ser o inimigo de novo.

E nesse ciclo da violência, a mídia acaba tendo um papel fundamental em alimentar o ciclo. É ela que mostra quem está levando a melhor ou pior nos embates e ajuda a criar tensão para o próximo. E mais, quando o que a mídia relata não é o que as pessoas viram, esse desconforto começa a se tornar revolta e as pessoas querem ser ouvidas quando falam sobre o que está acontecendo. Se a mídia não está ouvindo, eu vou falar cada vez mais alto e vou começar a falar usando a minha mídia.

Eu não fui aos protestos nenhum dia, mas os relatos que li falam que parte de quem estava protestando era jovem e que provavelmente de classe média. Os trabalhadores que realmente precisariam desse dinheiro não estariam lá. Mesmo que isso não seja 100% o que aconteceu, o fato de termos jovens de classe média brigando por algo que não muda suas vidas é algo digno de nota. O fato de ter gente falando para os outros não quebrarem a cidade, é digno de nota. E isso são coisas que não aparecem na mídia tradicional mas aparecem nos relatos nas redes sociais.

o fato de termos jovens de classe média brigando por algo que não muda suas vidas é algo digno de nota. O fato de ter gente falando para os outros não quebrarem a cidade, é digno de nota

Mas a sensação que tenho é que tudo isso pode ser o que está dando aos Millenials um propósito. E a tal da geração “que não faz nada”, “que só pensa nela” e tal agora pode ser realmente quem vai virar o jogo. Não apenas criando suas start-ups mas participando de uma possível mudança de atitude entre os brasileiros.

Queria que tivéssemos líderes mais articulados nos dois lados para que essas negociações acontecessem de uma maneira melhor para todos. O argumento de não negociar com o outro lado apenas mostra a imaturidade de ambos. O radicalismo leva ao erro e essa história de que as coisas só podem ser do meu jeito (tanto do lado do governo em não oferecer opções quanto ao MPL em só aceitar a volta do preço das passagens) parece coisa de quem não quer resolver nada mas sim impôr a sua vontade.

Vendo a manifestação me dá um orgulho dessa geração e me dá também uma esperança de que eles não serão tolerantes com o que acontece no Brasil como outras gerações foram.